Devemos espetacularizar a cultura popular

Por Sérgio Onofre*

 

Movido pela excelente critica de Maclém Carneiro, publicada no Caderno B do jornal Gazeta de Alagoas da última quarta-feira (26/08), sobre o show “30 Anos de Asfopal”, para o projeto Teatro Deodoro é o Maior Barato, com grande repercussão nas redes sociais, levantei alguns questionamentos:

Devemos ou não devemos espetacularizar a cultura popular? Ou para não parecer radical, como e de que forma os grupos devem ser apresentados ou apresentarem-se em “palcos” distintos de seus ambientes naturais? Ou ainda, em que medida esses “palcos” servem/contribuem para a preservação dos grupos e das tradições populares?

Para além da crítica em si, que é do e sobre o espetáculo, estas e outras questões foram afloradas pelo brilhante texto. Intencionalmente ou não, Maclém provoca-nos e incomoda-nos, trazendo, mais uma vez à tona, um velho e nunca resolvido debate. Debate este que certamente não resolveremos aqui, nesse curto espaço, mas, assim mesmo, vou pontuando outras questões para reflexão ou como pura provocação.

Se as cantigas, as danças e as brincadeiras populares, nascem da reunião solidária em comunidade, de ajuntamento de amigos e vizinhos para amassar o barro, bater o arroz, revirar o feijão sob o sol ardente, ou mesmo no refrescar das águas dos rios, no trabalho individualizado mas, nunca solitário, das lavadeiras no bater das roupas contra as rochas, no lavar do sururu retirado da lama ou no depenicar deste e de outros moluscos e crustáceos à sombra de uma arvore ou no alpendre de uma humilde construção nas periferias de toda e qualquer cidade. E ainda, na lida pesada das roças e canaviais, ou no aboio do gado e no trato de outros rebanhos. Se nestes e outros ambientes, configurados quase que absolutamente, pela baixa remuneração, pela pobreza e pelo distanciamento do Estado, de suas politicas e de equipamentos culturais, onde o trabalho — que determina a forma de vida e as relações societárias —, apresenta-se aqui também como forma, conteúdo e inspiração para as brincadeiras criadas em comunidade, penso que a melhor forma de “preservar” (esse conceito é, por si só, bastante complexo), os grupos e tradições populares, as formas de fazer e saber construídos a partir da experiência de vida e repassados pela oralidade seria, preliminarmente, garantir a melhoria de vida (trabalho, moradia e lazer) nas e das comunidades, lócus da tradição, portanto, da reprodução e mesmo da inovação e recriação dos saberes (vai aqui outra polêmica).

Assim, se a criação vem da inspiração, se a inspiração está necessariamente imbricada à experiência vivida, aos valores recebidos, aos conhecimentos partilhados por um povo, por um grupo social e é determinada pela forma de organização econômica. Se, é desta síntese que se conformam as formas, as normas, hábitos, tradições, enfim, os grupos e tradições culturais, sua “manutenção”, “valorização”, “preservação”, vão muito além da viabilização “palcos” para apresentações, de grandes ou pequenos eventos para absorvê-los. Atividades que sequer podem ser vistas como trabalho, porque via-de-regra, mal, ou na maioria das vezes, não-remunerado. Tampouco, como pontua Maclém Carneiro, podem ser vistos (se é que deve ser visto) como espetáculo, porque mal, ou na quase totalidade das vezes não (respeitosamente) produzidos.

Os grupos e artistas populares, só existem enquanto tal, se inseridos, alimentados e retroalimentando sua própria comunidade, suas raízes, suas tradições. Portanto, é na comunidade que devem ser fomentadas essas manifestações. É nesse ambiente que devem ser estimuladas, impulsionadas, promovidas, as brincadeiras, os ensaios, as apresentações e os festejos. Só assim, se estará investindo na possibilidade da sobrevivência, da continuidade e da sua reprodução. Desta forma, a apresentação de artistas e grupos de cultura popular em grandes eventos ou em ambientes frequentados por turistas e pessoas de maior poder aquisitivo, além do respeito e da remuneração adequada, deve ser vista como a consequência de uma Política de Estado que privilegie, de forma ampla, as condições de produção e reprodução desses mesmos grupos, de suas tradições, de suas vivências, ação pautada nos conceitos de cidadania e de inclusão social e econômica. A arte, o fazer artístico, tampouco o artista popular, devem ser tratados como sinônimo de carência e de pobreza econômica.

É professor da Universidade Federal de Alagoas.

 

 

Publicado originalmente em 03 de outubro de 2015 no Jornal Gazeta de Alagoas. Disponível em: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=274329

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