LINDA MASCARENHAS por Pedro Onofre

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Em Alagoas não havia atividade teatral na primeira metade do século, salvo tentativas amadoristas isoladas, sazonais, incentivadas em momentos de festa, pelas escolas e entidades de cultura artística. Mas, na segunda metade da década de 40, alguns jovens se reuniram em Maceió, na busca de formar um movimento estável. Esses jovens tornar-se-iam os precursores de uma atividade que eclodiria na capital alagoana, na década de 50, com reflexos no interior do Estado. Integravam o grupo, entre outras pessoas, Nelson Porto, Ademar Paiva e Lima Filho. Este último iria dirigir em 1945 o rádio-teatro na Difusora de Alagoas, emissora, à época, recentemente inaugurada. Referidos rapazes procuraram uma professora ligada aos movimentos da Igreja e às atividades artísticas e sociais para liderar o grupo que eles buscavam criar. Chamava-se Laureada, conhecida como Linda Mascarenhas, filha de uma prestigiosa família da classe média de Maceió, de onde surgiram oficiais superiores das Forças Armadas Brasileiras. Linda tinha entre seus hábitos, a boa leitura. Lia textos dramáticos, especialmente clássicos. Era poetisa e já havia escrito, na época, entre outros trabalhos, uma opereta e uma peça de teatro. Em 1950 foi criado o Teatro de Amadores de Pernambuco, sob o comando de conceituada família de médicos e professores universitários. Entre estes mereciam destaque o escritor médico e professor Waldemar de Oliveira e seus irmãos Walter e Alfredo. Eles disseminaram o Teatro no Nordeste, tendo laços mais estreitos em Alagoas. Naquele ano, o incipiente grupo conduzido por Linda Mascarenhas agregou novos integrantes, como o engenheiro e superintendente da Rede Ferroviária Federal de Alagoas, engenheiro Romildo Holiday e sua esposa Clandira, o jovem ator Bráulio Leite Júnior e sua talentosa esposa Edna Leite, a bela e promissora atriz Eunice Pontes, que morreu prematuramente, Florêncio Teixeira e tantos outros. Esse seleto grupo criou o Teatro de Amadores de Maceió – TAM, cuja presidência ficou a cargo de Romildo, amigo dos Oliveira de Pernambuco. O Teatro de Amadores de Maceió foi praticamente uma extensão do Teatro de Amadores de Pernambuco, com a mesma orientação técnica e artística e a igual opção estética. Ninguém poderá desmerecer o impacto de qualidade que essa influência nos legou. Em razão de divergência que tivera com integrantes daquele grupo, Linda Mascarenhas deixou-o, em 1955, para criar a ATA, Associação Teatral de Alagoas. Bráulio Leite Júnior, por sua vez, abandonou o Teatro de Amadores de Maceió e fundou no mesmo ano “Os Dionísios. No mesmo ano de 1955, enquanto Linda Mascarenhas fundava a Associação Teatral das Alagoas, eu criava o TEA – Teatro do Estudante de Alagoas. Linda fazia sua primeira aparição como atriz e diretora, na peça de sua autoria, ”Conflito Íntimo” e, eu, como diretor, na peça do carioca Renato Viana “O Divino Perfume”. As estréias dessas peças ocorreram em temporadas memoráveis no Teatro Deodoro. O Divino Perfume, que eu dirigi, revelou grandes atores entre os quais, Cybele Barbosa, Gilson Medeiros e Estácio Menezes. Cybele, nos anos subsequentes brilharia ao lado de Linda Mascarenhas, Gilson conquistaria lugar de destaque no amadorismo teatral da Paraíba, em cuja capital fixaria residência e Estácio de Menezes se tornaria encenador e grande cenógrafo.

Enquanto isso, o Teatro de Amadores de Maceió encenava seu último grande sucesso, a peça Massacre, de Huxley, dirigido por Willy Keller, diretor estrangeiro radicado no Rio de Janeiro. Para enfrentar o sucesso do TAM, Linda decidiu que teria de realizar um espetáculo do mesmo nível. Contratou, no Rio de Janeiro, Heldon Barroso, detentor de currículo no qual constavam Os Homens e as Armas, de Bernard Shaw e Mortos Sem Sepultura de Jean Paul Sartre. A peça escolhida foi a adaptação de Leo Victor do romance de Fiódor Dostoievski, O Idiota.

Certo dia, recebi um bilhete de Linda Mascarenhas, com quem ainda não tinha aproximação, para participar de um sarau em sua residência. O convite estendia-se a Cybele Barbosa. Dias depois, lá estávamos nós, na residência de Linda. A casa da grande senhora estava repleta de jovens amadores. Na oportunidade, Linda formalizou o convite para que eu e Cybele integrássemos a ATA, participando, como atores, de sua próxima montagem. Aceitamos o convite. “O Idiota” exigiu da ATA rico guarda-roupa e cenários magníficos. A montagem ganhou projeto de renomado cenógrafo e foi construído por competente equipe chefiada pelo saudoso José Cabral, sob a supervisão do próprio Heldon Barroso. Os protagonistas da peça foram Chiquinho Nemésio, no papel do príncipe idiota Liev Nikoláievitch Michkin e Pedro Onofre, encarnando o passional Parfen Rogójin. Surgia, compondo este triângulo, uma das grandes promessas do teatro alagoano, a excelente atriz Tereza Mendonça, que interpretou a enigmática Nastácia Filíppovna, alvo do amor dos dois homens, diferenciados em sua forma de sentir e expressar esse amor. Na peça, Linda Mascarenhas, aos 61 anos de idade, vitoriosa como autora teatral e diretora de cena, retorna como atriz, em alto estilo, no papel central de Lizaveta Prokófievna, numa das obras mais importantes da literatura universal, magistralmente adaptada para teatro por Léo Victor.

Anunciava-se para o primeiro mês do ano de 1957, a realização, no Rio de Janeiro, do grande Festival promovido pela Fundação Brasileira de Teatro presidida pela atriz Dulcina de Moraes. Convidada a participar dele, Linda mais uma vez traz do Rio de Janeiro o encenador Eldon Barroso, que se decidiu pelo texto “Noé”, peça em cinco atos, do francês André Obey. O diretor me escolheu, então, para viver a figura bíblica do grande patriarca. Os filhos de Noé e suas esposas foram encarnados, simultaneamente, por Chiquinho Nemésio e Leda Oliveira; Cid Oscar Augusto e Marisa Maia Gomes; José Messias e Tereza Mendonça. A preparação do papel de Noé talvez tenha sido o maior desafio que enfrentei como ator. Personagem principal, com longas falas em cinco atos, durante os quais praticamente não saia de cena, exigiu-me esforço imenso num curto período de dois meses de ensaios. A apresentação da ATA arrancou aplausos em cena aberta. O nível do Festival foi excelente, mas houve um momento diferenciado, quando se apresentou um grupo de jovens pernambucanos comandado por Clênio Vanderley. A peça tinha o título de O Auto da Compadecida; o autor era um jovem desconhecido chamado Ariano Suassuna. Naquele momento nascia ali, não apenas um dos maiores dramaturgos deste País, mas, uma Dramaturgia nova, nordestina, vigorosa, que deixaria perplexos não apenas os participantes do I Festival da Fundação Brasileira de Teatro, mas toda a crítica especializada. A partir daquele momento, O Auto da Compadecida conquistaria o mundo e se tornaria a mais autêntica expressão da dramaturgia nacional, carente, até aquele momento, de textos que refletissem na integralidade, as raízes culturais deste País.

Quando o Júri proclamou o resultado, dando à obra de Suassuna o prêmio maior, não houve contestação, mas um aplauso gigantesco, entusiástico, emocional. Ao chegar a Maceió, Linda já houvera concebido outro projeto. Sem que ninguém soubesse, manteve entendimentos com o grande diretor carioca Antônio Graça Melo que viria, tempos depois, para Pernambuco a fim de organizar o Departamento de Teatro da Universidade Federal daquele Estado. Contratado pela ATA, Graça Melo montou a peça do autor italiano Achilles Saitta, denominada “Mulheres Feias”, um melodrama moderno pontilhado de densa carga psicológica. Fui escolhido para fazer o papel central, ao lado de Linda Mascarenhas que representava uma mulher extremamente dominadora e egocêntrica. Participaram dessa montagem Cid Oscar Augusto, Chiquinho Nemésio, Orlando Góis, Nelita Serrano e Marisa Maia Gomes, substituída, depois, por Cibele Barbosa. Das peças anteriores, esta, a meu ver, mereceu o melhor desempenho de Linda. Dotada de voz pequena, possuía, contudo, qualidades invejáveis, como a de memorizar longos textos com facilidade e de se entregar de corpo e alma ao personagem, com disciplina irrepreensível. Graça Melo foi o melhor diretor teatral que conheci. Por intermédio dele, mantive os primeiros contatos com o Método de Stanislavsky. O projeto seguinte da ATA foi a montagem de uma peça de minha autoria, “Complexos”, estrelada e dirigida pela grande dama do teatro alagoano. Naquela época, face outros eventos que me influenciaram profundamente, estava convencido de que deveria criar o meu Grupo. Fundei o Teatro Cultura do Nordeste – TCN, no dia 16 de Setembro de 1959 (ainda hoje em atividade), com a proposta de apresentar um trabalho artístico comprometido com a realidade política e social do País. Embora, atuando no meu próprio Grupo, jamais deixei de freqüentar a residência de Linda e apoiá-la em seus projetos. Quando ela decidiu encenar a peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles Não Usam Black-Tie, indicamos, de muito bom grado, o ator Jofre Soares, para interpretar o sindicalista Otávio. No papel de Romana, Linda esteve impecável. Acredito, haja sido este o momento áureo de sua trajetória como atriz.

Publicado originalmente em: http://peonofre.blogspot.com.br/ – quinta-feira, 27 de maio de 2010

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