Entrevista com Pedro Onofre

Por Gabriel Carneiro
(Revista Zingú, junho/2009)

Imagens: Arquivo pessoal

 

Pedro Onofre, 74, é advogado, diretor teatral, jornalista, escritor e cineasta. Já escreveu mais de 30 peças teatrais, entre elas, Homens e Feras, Terra Maldita, Mundaú, Lagoa Assassinada, Complexos (Prêmio ACTA, 1960), Vendaval no Paraíso(Prêmio Romeu de Avelar, 1998 da Academia Alagoana de Letras), Lua de Sangue Sobre o Vale, O Suicídio e Tempestade em Céu Azul. Já publicou livros de poesia (Turbilhão, A Canção do Luar Impossível, Cânticos à Minha Terra, Canções de Outono, À Sombra das Arapiracas, A História de Noé), romances (A Ressurreição da Hidra, A Hora da Vingança), além de Contribuições Para Uma Política Cultural. Realizou três longas, sendo dois para conclusão do curso de Teledramaturgia que ministra.

Em entrevista, o realizador alagoano de melodramas como é fazer cinema fora das políticas culturais de incentivo e das dificuldades de prosperar na arte. Além de comentar sobre seus três longas – Nas trevas da Obsessão, Homens e Feras e O Suicídio -, Onofre fala de sua nova produção, em andamento, Terra Maldita.

Zingu! – Quando começou seu interesse pelo cinema? E em criar cinema?

Pedro Onofre – Nasci em Maceió, capital do estado, em 1935, mas praticamente me criei no interior, em Arapiraca, uma pequena cidade que décadas depois se transformaria no mais importante centro comercial de Alagoas. O seu desenvolvimento teve como origem a monocultura do fumo, distribuída em pequenas glebas entre os habitantes. Aqui, a reforma agrária deu-se de forma espontânea. Na minha infância, dispunha apenas de duas opções de lazer: o velho Cine Leão e os circos que duas vezes por ano visitavam a comunidade. Eram eles, o circo Nerino e o J. Mariano. O cinema e o teatro me fascinavam desde aquela época. Brincava com meninos da minha idade esticando lençol na frente de uma lâmpada, e projetando nele sombras em movimento, quase sempre improvisando uma historinha. Minha atração pelo cinema veio dos filmes que assisti. Quando o Cine Leão fechou suas portas, um grupo de jovens liderado por mim transformou o casarão, por breve tempo, em teatro. Nele, tive as primeiras experiências cênicas. Era o ano de 1950. Dois anos depois segui para Recife, a fim de cursar o ginasial. Na Veneza brasileira, passei a ver teatro e a participar de grupos amadores até que em 1955 fixei residência em Maceió. Na capital do meu estado, criei, no mesmo ano, o Centro de Estudos Cinematográficos, com artistas, jornalistas e radialistas, amantes da chamada sétima arte. Criei também o Teatro Cultura do Nordeste que, ao contrário das propostas existentes, propunha um teatro ligado às raízes nacionais e à nossa realidade social.

Z – E quando surgiu a idéia de criar cinema de fato?

PO – O Centro de Estudos Cinematográficos (1958) durou um ano, mas esse breve tempo foi muito produtivo. Tivemos experiências práticas, farta discussão teórica, elaboração de trabalhos coletivos: estudos de roteiro e debates sobre história e economia do cinema. Um dia, adquiri uma câmera usada de 35 mm, movida a corda, com três objetivas. Com ela, pude realizar experimentalmente alguns trabalhos. Utilizando-a em exercícios no Centro, foram iniciados futuros técnicos e atores. Documentamos alguns fatos jornalísticos, entre eles, a primeira prospecção de petróleo em Alagoas, no Jequiá da Praia. Tínhamos o objetivo do aprendizado e um sonho. Resolvemos, em dado momento, apressar esse desiderato. Foi o primeiro delírio: a preparação de um filme de longa metragem com roteiro elaborado coletivamente. O filme deveria chamar-se Atormentados. O enredo era singelo, e os personagens cheios de problemas existenciais. Algumas cenas foram tomadas, tendo como cenários as belas praias do Riacho Doce e trechos paradisíacos da lagoa Mundaú. O sonho findou-se, todavia, quase no nascedouro. Num desastre aéreo em Campina Grande, Na Paraíba, com um Curtis da extinta Loyde Aéreo, prefixo PP-LDX, do qual escapei ileso, perdi o modesto equipamento cinematográfico. Fiquei triste, mas conformado, por ter escapado de um sinistro acidente que ceifou mais de dezessete vidas. Decidi abandonar temporariamente o cinema para me dedicar ao teatro. Todavia, quando temos uma paixão, dificilmente escapamos dela. Em 1960, comprei, em São Paulo, uma Arriflex 35mm, também usada, mas em bom estado. Com essa câmera pretendia reiniciar a atividade tragicamente interrompida. Passei a realizar filmagens de eventos e notícias para jornais de tela do Sul, como correspondente cinematográfico.

Z – O processo de criação fílmica se deu como para você?

PO – A primeira coisa que aprendi ainda moço, além de utilizar uma câmera e capturar as imagens de que precisava, foi escrever roteiro dentro dos padrões da velha Academia. Pouco e pouco pude vencer parte do formalismo e, timidamente, bosquejar alguns experimentos. Elaborei roteiros de curta metragem, quase sempre sob encomenda. Poucos longas-metragens: O Açude, de Emanuel Rodrigues; O Sal da Terra, de Mayerber de Carvalho e A Epopéia do Cariri. Em 1968, criei, em Recife, a Cinearte Filmes, com Mayerber Carvalho e Luiz Alcântara. Realizei, a princípio, alguns documentários encomendados comerciais, institucionais e artísticos, até que iniciei a produção de um filme de longa metragem por mim escrito e dirigido, em preto e branco, denominado Nas trevas da obsessão, drama psicológico denso, de cujo trabalho não me restaram nem fotografias. A Diretoria da Cinearte aprovou dois projetos: o meu, em preto e branco, e o de Mayerber de Carvalho, em cores. O meu foi uma realização cheia de percalços. Finalmente ao concluí-lo, no Rio de Janeiro, o filme foi lançado em algumas capitais, entre elas São Paulo e Rio. O filme recebeu Certificado de Censura, e consta dos anais do cinema brasileiro. Alguns fatores frustraram-lhe a comercialização: o fato de ser em preto e branco, num momento que o cinema nacional começava a produzir em cores; o tema e o título pouco comerciais, os atores desconhecidos e o mercado exibidor extremamente difícil, em face do reduzido público que os filmes brasileiros, com raríssimas exceções, recebiam à época. Sobrevivi algum tempo no cinema, filmando para a televisão. Depois, pela segunda vez, abandonei o sonho.

Z – Do que se tratava Nas Trevas da Obsessão?

PO – O filme conta a história de um escritor que viaja de carro sozinho e vê uma jovem, prestes a atirar-se da ponte. Após evitar o suicídio, leva-a à casa dela. Lá fica sabendo que a jovem saíra recentemente de um sanatório. Dois anos antes, no dia do casamento dela, assistira ao noivo morrer antes de chegar ao altar – assassinado com dose mortal de veneno. Convidado a se hospedar na casa da moça, conhece Elizabeth, irmã mais velha da jovem a quem salvara. Desencadeia-se uma forte atração entre ambos. Mas a mulher é um enigma, o que passa a incomodar o homem, que tentará solucionar esse mistério. O filme foi produzido com recursos da Cinearte S/A e seu orçamento à época ficou em torno de Cr$ 120.000,00 (cento e vinte mil cruzeiros).

Z – Porque não restam nem fotografias?

PO – Eu era um acionista minoritário da Cinearte S/A. Com a falência da empresa, seu patrimônio foi corroído, como também seu pequeno acervo. Desiludido, não guardei daquela experiência qualquer lembrança. Algumas cópias foram tiradas. Sei que uma delas ficou com a Delegacia local do INC, em Recife, e outras, provavelmente com a distribuidora.

Z – E como você voltou ao cinema?

PO – Voltei à terra em 1980. Dediquei-me à administração cultural, ao teatro, e à advocacia como forma de sobrevivência. Em 1995, presidindo o SATED/AL, realizei o primeiro Curso de Teledramaturgia, com duração de 90 dias. Trouxe, para isso, alguns professores de São Paulo e consegui do Fundo Nacional de Cultura, ajuda parcial para o Projeto. Banquei o restante das despesas com recursos próprios. Ao fim do curso, foi realizado um vídeo de longa metragem, baseado em obra de minha autoria e sob a minha direção.Homens e Feras, enredo que se passa nos anos de ferro da ditadura militar. Rodado em vídeo analógico, U-MATIC, em caráter experimental, não teve comercialização. Ao aposentar-me das atividades jurídicas, decidi dedicar o resto da minha vida à concretização daquele sonho algumas vezes interrompido por força da própria sobrevivência. Instalei, em 2004, um espaço cultural na periferia de Maceió; nele, um teatro rústico de 300 lugares e um pequeno estúdio para a realização de audiovisuais. A iniciativa destina-se aos jovens com vocação para o teatro e o cinema, e é mantida por mim. Tudo ali é gratuito. Adquiri câmeras de alta definição, equipamentos de luz e som, ilhas de edição não lineares e parti para a realização de cursos de média duração para formar técnicos e artistas de cinema de ficção e documental. Ao fim do primeiro curso [II Curso de Teledramaturgia], mestres e alunos realizaram sua primeira produção experimental de longa metragem baseado em texto de minha autoria, por mim roteirizado e dirigido, O Suicídio, promovido pelo Núcleo de Estudos Audiovisuais do Instituto de Estudos Culturais – IECPS.

Z – Homens e Feras é uma peça teatral de sua autoria escrita durante a ditadura militar. Porque adaptar esse texto?

PO – Homens e Feras foi concebido na década de setenta, mas somente publicado em livro após a redemocratização do país. Escrevi essa peça, tomado de perplexidade e revolta ante uma realidade trágica que vivenciávamos. Víamos o estado brasileiro assassinando e torturando jovens pelo Brasil a fora, cujo único crime era o de sonhar com uma sociedade mais justa e mais fraterna. Fui testemunha ocular desse período de trevas e sofri como tantos brasileiros. Reportando-me ao filme, somente a intriga é nele ficcional. Tudo mais é realidade; as pessoas desaparecidas e mortas a que o texto faz referência, a tortura, a insegurança, a angústia dos perseguidos, a falta de perspectiva, a necessidade de deixar o país em busca de asilo político, os riscos e as indecisões. Tudo verdade! Adaptei esse texto e pretendo no próximo ano filmar uma segunda versão, com novo elenco, em HD. Nunca é demais lembrar esse período nefasto da vida nacional. Ele jamais pode ser esquecido. As gerações precisam estar preparadas para impedir que a história se repita.

Z – Como foi retratar esse período?

PO – Algumas obras minhas abordam aquele período. As mais contundentes são Homens e Feras e o romance A Ressurreição da Hidra, que recebeu o prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras. Não foi fácil retratar aquele acontecimento. O trabalho era muito angustiante. Algumas vezes parava de escrever com os olhos cheios de lágrimas. Isso porque eu conheci e convivi com pessoas que foram mortas e torturadas nos porões da ditadura.

Z -Quanto gastou para realizar esse filme e em quê?

PO – Homens e Feras foi de baixíssimo custo. O curso e o filme orçaram apenas R$ 47.000,00 (quarenta e sete mil reais); R$ 20.000,00 financiados pelo MINC, FNC e o restante pelo SATED/AL, através de patrocinadores comerciais. Os gastos foram basicamente com transporte, combustível, aluguel de equipamentos, alimentação, passagens, hospedagens de professores, contratação de pessoa técnico e pessoal de apoio, material de cenografia, material de iluminação, estúdio de edição e despesas gerais.

Z – E O Suicídio? Porque escolher esse texto seu?

PO – Essa obra foi produzida em caráter experimental. Ao fim do curso de teledramaturgia, decidimos realizar, mestres e alunos, um trabalho experimental de longa-metragem baseado num texto de minha autoria, O Suicídio. Tenho um carinho especial por essa peça por ter sido uma das minhas primeiras escritas. Também, por abordar a história de um jornalista que sonha com um mundo melhor. O meu personagem, no filme, é uma pessoa fraca, que depois de lutar contra tudo e contra todos, de defender uma imprensa ética e verdadeiramente aberta à liberdade de pensamento, deixa-se abater pelas frustrações, pára de lutar e entrega-se ao vício. O intelecto que um dia deu-lhe notoriedade trouxe-lhe igualmente dificuldades com as quais não conseguiu conviver. Casado com jovem da burguesia local, Roberta, tem sérios problemas para manter a estrutura familiar. Isso é agravado quando a irmã de Roberta, uma adolescente de 17 anos, vai morar com eles.

Z -Quanto gastou para realizar esse filme e em quê?

PO – O Suicídio custou R$ 80.000,00 (oitenta mil reais); R$ 30.000,00 (trinta mil reais) custeados pelo IECPS (Instituto de Estudos Culturais) mediante doações de associados e o restante investido por mim, através de empréstimos junto ao Banco Cruzeiro do Sul. Os gastos com tiveram a mesma rubrica de Homens e Feras, acrescidas de alugueis de espaços, guarda-roupa, maquilagem, sonoplastia, despesas de administração, impressões de DVDs (o lançamento oficial foi realizado no teatro oficial do estado, Teatro Deodoro) e despesas de lançamento local. Não foi lançado no cinema, pois foi filmado em vídeo digital de definição insuficiente para a transposição em película

Z – Qual sua opinião sobre o moralismo?

PO – Minha formação jurídica não aceita uma sociedade sem regras de convivências. Isso seria o caos. Por outro lado, meu espírito libertário não admite cadeias que esmaguem a alma humana, especialmente em relação à liberdade de expressão, de pensamento, de sentimentos e de crença. Moralismo é a exacerbação do princípio da moral; moral que passa a ser a norteadora onipotente dos costumes, fora da qual tudo é condenável. O moralismo é o pai da intolerância e do preconceito. Para ser mais radical e menos acadêmico sobre esse assunto, moralismo é farsa empregada como forma de opressão. Jamais conheci um moralista que não fosse hipócrita; um túmulo caiado, um lobo em pele de cordeiro. Nos meus filmes, de certa forma, procuro desmascarar essa forma de hipocrisia.

Z – A nudez é importante em seu cinema?

PO – É sim. Muito importante. É importante desnudar o corpo, desnudar a alma, arrancar a máscara da hipocrisia, deixar a nu o que o ser humano possui de mais nobre e de mais abjeto dentro e fora dele. Esse é o papel da arte; o papel das letras; o papel de todos o que propugnam pela humanização do próprio homem, pela libertação deste, ante a verdade de sua própria natureza.

Z – Por que o melodrama?

PO – Adquiri paixão pelo teatro, assistindo aos dramas circenses, desde o tempo de criança. O chamado dramalhão do circo me fascinava: Dos textos até a interpretação de atores carregada de cores fortes e apelações desesperadas. Isso me fez perceber a complexidade da alma humana, na grande tragédia da sua sobrevivência e coexistência com os demais da sua espécie. Entendi essa importância antes de conhecer Aristóteles e de perceber a catarse, o processo de purgação. Talvez esteja aí a resposta porque, tendo produzido trinta e duas peças teatrais, apenas três comédias consegui escrever.

Z – Qual o papel do teatro na sua vida e no seu cinema?

PO – O teatro sempre esteve presente na minha vida, com mais freqüência que o cinema, ora como autor, ator, diretor e produtor. Essa vivência, especialmente na direção e preparação do espetáculo, foi, para mim, fundamental em relação ao cinema. Ambos têm suas especificidades, mas se harmonizam no objetivo que perseguem. Quando jovem, conheci um diretor de teatro chamado Antônio da Graça Mello, carioca, que veio morar no Nordeste e dirigir o Departamento de Teatro da Universidade Federal de Pernambuco. Graça passou alguns meses em Alagoas. Aqui encenou a peça Mulheres Feias, de Acquiles Saitta. Atuei nela como ator. Com o mestre, conheci o Método de Constantin Stanislavski, que até hoje tem sido a base do meu trabalho na preparação de atores. Entendi anos depois que a verdade cênica poderia ser aplicada não apenas em relação à linguagem dos atores, mas, também, no diálogo subjetivo das imagens. Aprendi que era determinante o manuseio preciso do ritmo no tempo e no espaço. A imagem fria e impessoal tende a ganhar alma na descrição da realidade e tornar-se viva, caminhando de braços dados com o ator na busca do destino final.Z – Você tem alguma preocupação estética ao fazer seus filmes?PO – Faço cinema com a mesma preocupação que tenho em todos os meus trabalhos no terreno das Artes, sejam estas o teatro, a música ou as letras, nas quais promovo minhas incursões como dramaturgo, poeta e romancista. Como geralmente meus filmes são feitos com parcos recursos, não me foi dado buscar a qualidade estética ao nível que desejaria. Faço o que posso dentro da minha realidade. O que, todavia, está presente em todos esses trabalhos é o meu compromisso com a verdade histórica, política e social dos meus personagens, dentro do universo em que se situam. Esse compromisso é a linha mestra da minha ficção. Procuro nos argumentos descobrir a alma humana sem falso pudor ou preconceito dando às suas misérias o mesmo tratamento das suas grandezas, por entender que todos nós temos nas fibras mais profundas da nossa alma a bondade do santo e a maldade do demônio. Não escondo minhas convicções político-ideológicas, mas deixo os personagens, até certo ponto, à vontade segundo sua natureza.

Z – Como transformar os parcos recursos em qualidade?

PO – Tudo começa na elaboração do roteiro que deverá ser simples em relação às necessidades cênicas e factível com o mínimo possível de equipamentos. Na produção do filme em andamento, Terra Maldita, utilizo a imagem digital de alta definição que me dará qualidade cinematográfica a baixo custo. Os atores participam em regime de cooperativa em relação às perspectivas comerciais do filme, mas recebem pagamento de pequenos cachês consensualmente convencionados. As cenas são ensaiadas antes de filmadas, reduzindo tempo e trabalho. Os equipamentos são próprios e a edição, feita em nossas ilhas.

Z – Quais são suas influências?

PO – Não tenho influência determinante. Adquiri certo conhecimento teórico e prático assistindo a filmes de várias tendências e lendo bastante. Mais que isso: também experimentando, arriscando-me. Tenho preferência por alguns realizadores no Brasil. Admiro Nelson Pereira dos Santos, diretor de Rio 40º Graus e Vidas Secas, a quem conheci quando estive no Rio editando Nas Trevas da Obsessão e quando ele esteve em Alagoas filmando Vidas Secas e parte de Memórias de Cárcere, do nosso Graciliano. Aprecio os diretores italianos do pós-Guerra e os franceses pós-Nouvelle Vague. O cinema russo me fascina.

Z – Quanto tempo você demora para filmar e editar um vídeo?

PO – Um audiovisual de curta metragem, em média, um mês, podendo dobrar esse período na razão direta de sua complexidade. Um filme de longa metragem, após todas as suas etapas, um ano de trabalho.

Z – Como você banca os filmes?

PO – Minhas produções são de baixíssimo custo. De outra forma não as conseguiria realizar. Mesmo assim, para uma pessoa da classe média como eu, bancar tal empreendimento, com envolvimento de pessoas, coisas e encargos financeiros, embora pequenos, exige desprendimento, considerando-se que dificilmente haverá retorno do investimento feito. De início tenho a vantagem de possuir um espaço dotado dos recursos técnicos mínimos necessários à produção de um filme, tais como duas câmeras Panasonic HVX 200B, com 3 CCDs, modo cinema e 24 Q/S, alta definição e cartão P2 e seus componentes, duas ilhas de edição, uma Avid Xpress pro HD e outra Matrox/Adobe Première (pro HD). Temos travelling, dolly, grua, steadicam, tripés manfrotto, sistemas de luz e som além de estúdio com recursos de croma. Eu mesmo preparo minha equipe e ensaio os atores antes das filmagens; elaboro os planos de produção e de filmagem, componho a música e dirijo o filme. Não é querer ser auto-suficiente; é a necessidade que impõe. Mesmo assim, uma produção de longa metragem, após suas fases de realização, até o DVD ou à primeira cópia transposta do HD para a película não custa menos de duzentos a trezentos mil reais, quantia essa que espero comprometer, utilizando recursos próprios e empréstimos na realização de Terra Maldita, cujas filmagens já foram iniciadas.

Z – Como você recruta atores?

PO – A minha atividade teatral, mais constante que a cinematográfica, há mais de meio século, mantém-me sempre em contato com artistas alagoanos, em cujo meio, conto com grande número de amigos. Mais de uma centena de jovens eu preparei para as artes cênicas; muitos seguiram carreira fora do estado. Assim, não tenho dificuldade de recrutar as pessoas de que necessito. Em 1987, fundei o SATED de Alagoas, presidindo-o durante seis anos. Deixei-o nas mãos de amigos que ainda hoje estão à frente dele. Com a instalação do meu espaço cultural em 2004, venho ministrando cursos gratuitos na área de audiovisuais e teledramaturgia, com excelentes resultados.

Z – Como é fazer cinema no Brasil?

PO – No Brasil, há três castas de fazedores de cinema. A primeira é composta pelos príncipes, restrito clube de privilegiados esbanjadores de visibilidade, que à mancheia lhe propicia a grande mídia, e para quem se convergem os milhões dos incentivos. A segunda é a corte complacente e resignada, que divide as sobras do grande banquete dos patrocínios públicos e fiscais; e, finalmente, a terceira, a casta proletária, mais de noventa por cento dos artistas e intelectuais brasileiros. Essa casta eu chamaria de poeira de ouro da cultura a se espalhar pelo país afora. Para ela, fazer cinema – arte de modo geral – é um angustiante exercício de paciência, de renúncia em busca do sonho, de crença no quase impossível, na expectativa de que o impossível possa acontecer. O Brasil é um país de artistas, cada qual com sua visão estética, seu instrumental prático, ideológico e simbólico, com sua verdade e metodologia. Para que materialize seu produto cultural, no caso presente o cinema, o realizador precisam antes vencer os senhores da verdade, o intervencionismo político, os donos do dinheiro e os burocratas auto-suficientes com poder de decisão. Estes decidem o que possui, ou não, valor artístico e cultural; quem merece, ou não, o beneplácito e o apoio do poder público; quem deve, ou não, ser alijado do universo cultural, ou renegado pelo poder – geralmente quem não orbita o círculo de interesses dos político-partidários que detêm ocasionalmente o poder. Aqui, pouca coisa que venha das políticas culturais públicas merece credibilidade. Como me integro ao segmento marginal dos que não beijam as mãos dos poderosos, venho realizando de maneira independente o meu trabalho na forma que me é possível fazê-lo. Não tenho alternativa. Essa posição decorre de longa experiência em Alagoas, na área da cultura. Mês passado o MINC baixou Edital para financiamento de projeto precisamente na área a que historicamente me dedico. A Secretaria de Cultura ficou com o encargo de informar aos produtores culturais. Os que interessavam ao sistema político dominante receberam a informação tempestivamente. No meu caso, o e-mail avisando da existência do Edital foi expedido dois dias após o encerramento das inscrições. Não é um caso isolado. É uma constante – com exemplos mais graves. Assim, produzo cinema e teatro sem recursos públicos. Bom, porque não preciso dar explicações a ninguém nem seguir o decálogo do poder. Felizmente, a tecnologia digital veio democratizar um pouco a produção do cinema, minimizando-lhe os custos.Z – Do que se trata seu próximo filme, Terra Maldita? Qual o orçamento?PO – A produção em andamento é uma iniciativa independente, mais arrojada, que está se beneficiando em parte dos recursos humanos preparados nos cursos em referência. A produção conta com investimento acima de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais). Estou pessoalmente assumindo o encargo, através de economias próprias, empréstimos e alguns patrocínios de empresários amigos, sem benefícios fiscais. O filme em si aborda o tema agrário brasileiro de ontem e de hoje. A história começa nos dias atuais e retrograda aos anos sessenta. Documentando um conflito de sem-terras, uma jornalista vê entre os integrantes do Movimento, uma solitária anciã. Impressiona-se com ela e procura entrevistá-la. Maria das Dores, a mais velha dos integrantes do MST, nasceu num pequeno sítio no alto sertão alagoano. Com setenta anos de idade, ao longo da vida conheceu o gosto amargo da desgraça, da opressão e da tirania. Ao longo da existência, vem testemunhando a concentração de poder cada vez maior nas mãos de alguns; o latifúndio expulsando os pequenos proprietários de suas terras e a miséria se espalhando nos campos e nas cidades. Filha única de um casal de pequenos agricultores, foi criada pelo pai e o avô, romeiro fanático do Padre do Juazeiro, com passagem pelo cangaço. Naquela época, ferido e muito doente, pediu permissão para morrer no sítio do filho. Corisco mandou levá-lo em segurança. Sobreviveu milagrosamente aos ferimentos e, a partir de então, abandonou o cangaço. Alguns anos depois desse episódio, nascia Maria de Jesus. Quando sua mãe morreu, a jovem viveu ao lado do pai e do avô até que uma tragédia se abateu sobre suas cabeças, deixando-a sozinha, desamparada, num mundo adverso, cheia de ódio e de revolta. Por sorte, ou desdita, conheceu as Ligas Camponesas, que se organizavam como um exército de homens e mulheres preparados ideológica e militarmente para a sobrevivência no campo. Durante o golpe militar, foi presa, torturada, mas teve sorte de escapar com vida. Com a redemocratização, os movimentos nos campos voltaram a ser articulados. Ela e o marido ingressaram no MST. Maria de Jesus dedicou-se a alfabetizar homens, mulheres e crianças, dentro dos acampamentos, até que o infortúnio mais uma vez se abateu sobre ela. Num conflito armado entre camponeses e grileiros de terra apoiados pela polícia, o marido foi assassinado. Desde então, a família dela tem sido os sem-terras. Onde quer que sigam, na dolorosa caminhada, acompanha-lhes os passos. Se lhe perguntam o que procura, o que espera da vida, não tem resposta. Não procura nem espera mais nada. Segue apenas o sonho. O movimento dos sem-terra tornou-se a sua ligação com o passado. Esses homens e mulheres aparentemente sem rumo são hoje a extensão anônima da sua família, em meio aos quais há de em breve fechar os olhos para, finalmente, apossar-se da terra que sempre lhe foi negada. Este será o filme.

Z – Tem outros projetos?
PO – Pretendo iniciar após o lançamento de Terra Maldita, o filme Aconteceu Numa Noite de Inverno, história que traz como pano de fundo o Rio São Francisco. O roteiro já está pronto, como também todo o plano de produção. Faltam detalhes que precisam ser equacionados.

 

 

 

Disponível em: http://revistazingu.blogspot.com.br/2009/06/dcb2-entrevistacompedroonofre.html

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